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Lavagem da Madeleine é um pouquinho da Bahia na França

Lavagem da Madeleine é um festival cultural franco-brasileiro composto por vários eventos culturais no coração de Paris. Recebe o apoio da prefeitura de Paris, assim como da UNESCO desde 2011, uma vez que incluiu em seu programa intitulado

Por Jorge Matos em 14/09/2020 às 10:23:08
Foto do site oficial do evento.

Foto do site oficial do evento.

Apesar da pandemia de Covi-9, que volta a assustar a França, o maior e mais tradicional evento Brasileiro em Paris, a Lavagem da Madeleine, não foi cancelado. A festa, que chegou aos 19 anos e é inspirada na Lavagem do Bonfim, de Salvador, aconteceu neste domingo (13), na capital francesa

Este ano o cortejo foi reduzido, assim como o tamanho das alas, mas o desfile contagiou o público nas ruas em torno da Igreja da Madeleine, no 8º distrito de Paris. Franceses e estrangeiros pararam para ver o evento, que teve a tradicional ala das baianas, abrindo o desfile, sendo seguida de perto pelo grupo de percussão Batalá.

Logo atrás deles, veio a Ala Mulheres na Resistência, que homenageou escritoras indígenas e negras. E, para fechar o cortejo, o Bloco Verde, que chamava a atenção para os problemas ambientais do Brasil, entre eles a situação do povo indígena e a Amazônia.

"Eu tinha pesadelo de que não ia conseguir fazer a Lavagem, com tantos eventos anulados este ano. E a gente conseguir fazer esta festa por 19 anos sem parar - trazendo a nossa resistência do negro, do gay, celebrando a união do povo brasileiro com a França -, conseguir botar o bloco na rua foi realmente uma vitória", celebra Roberto Chaves, criador e organizador do evento, que costuma atrair milhares de pessoas às ruas de Paris e este ano foi reduzido a algumas centenas.

A carioca Nayma, que participa da Lavagem da Madeleine desde 2001 e há quatro desfila vestida de baiana na ala que abre o cortejo, admite que teve medo que o evento fosse anulado. Ela estava presente com seus três filhos na ala das baianas e celebra as suas colegas de outra ala.

"O que eu estou achando lindo é que tem um valor simbólica muito especial, com estas Mulheres na Resistência, que têm uma mensagem forte contra o que está acontecendo no Brasil. Poder estar aqui este ano para mim é perfeito", diz Nayma.

Membro de um grupo ecológico na França, a francesa Olivia participou do Bloco Verde por achar que não pode se calar frente às queimadas na Amazônia e no Pantanal. "Hoje estou aqui pelo Brasil, vim prestar meu apoio e minha solidariedade aos brasileiros", disse.

Sincretismo religioso como na Bahia

Criada em 2001, a lavagem parisiense, como a sua ancestral baiana, traz o tema da paz universal e do sincretismo religioso para a França. Todos os anos, um padre católico e um pai de santo celebram a lavagem das escadarias da Igreja, feita pelas baianas com água e alfazema.

Francês, o padre Bruno Horaist, pároco da Igreja da Madeleine, comemora o fato de a festa ter tido espaço mais uma vez, apesar da pandemia. "As pessoas estão respeitando (o uso de máscaras) e, mesmo se estão bem conscientes, estão contentes. Tem música, tem canto, e a gente consegue se alegrar mesmo em situações complicadas. Eu estou muito feliz", disse ele em exclusividade para a RFI, logo depois de fazer um discurso ecumênico ao lado do babalorixá Jovani de Miranda.

No discurso oficial, o padre deu as boas vindas ao público, sem esquecer de mencionar o momento atual: "As escadarias da Madeleine servem a alguma coisa uma vez por ano, então parabéns ao arquiteto que previu esta construção para vos acolher. Estamos tristes pela situação atual mas, como somos crentes, estamos cheios de esperança. E isso não nos impede de ser feliz e crer na vida. Boa festa, sejam sempre bem-vindos", disse Horaist.

"Pensemos em todos aqueles que estão doentes e que morreram devido à Covid, no país de vocês e no mundo inteiro, eles estão nas nossas orações. Viva a vida, viva a liberdade e a fraternidade", concluiu o padre.

Em seu discurso, o babalorixá Jovani de Miranda homenageou o ex-embaixador do Brasil na França, Paulo César Campos, morto este ano, e "todos os mortos pela Covid-19", com um minuto de silêncio. Ele também entoou um canto em iorubá especial para a Lavagem.

O representante do candomblé, que mora em Paris há 35 anos e participa da Lavagem há 19 anos, disse que está feliz e satisfeito por ter podido realizar o evento este ano. A sensação geral era de alívio.

Protestos

Não só de fé e religiosidade foi feita a festa franco-brasileira. Este ano, não faltaram cartazes - em francês, inglês e português - com frases como "Emergência indígena", "Nossas florestas estão morrendo, nosso mundo está queimando", da ala ambiental, e "130 mil mortos", "Queiroz + Michelle = R$ 89 mil", "Necropolítica" e "Fora Bolsonaro", entre outras, da Ala Mulheres na Resistência.

Nellma Barreto, que coordenou a Ala mulheres na Resistência pela segunda vez este ano, disse que contou com os membros do coletivo para escolher as 15 escritoras indígenas e negras a serem homenageadas este ano. Cartazes com as fotos de Carolina de Jesus, Conceição Evaristo, Sônia Guajajara, Célia Xakriaba, Joice Berth, cacica Kerexu Yxapyry, entre outras, encheram de representatividade as ruas e as escadarias da Madeleine.

O site oficial do evento traz uma homenagem ao embaixador Paulo César que morreu este ano, vitima de Covid-19 leia a tradução do texto:1

Triste notícia, acabamos de saber da morte do ex-Embaixador do Brasil na França, Paulo César, por meio desta matéria viemos expressar nossos sentimentos; uma dor forte, estamos consternados e de luto. Este querido embaixador foi o primeiro diplomata brasileiro representando o Brasil aqui em Paris, a realmente abraçar, vestir a camisa do nosso evento. Fervoroso defensor da nossa tradicional cultura afro, um coração verdadeiramente cristalino, um ser exemplar, um homem de palavra e respeito. Sentimos sua falta, nosso eterno amigo Paul.

Familia Lavage Madeleine PARIS

Fonte: https://www.lavagedelamadeleine.com/pt-br/

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